Mas afinal, qual é a função do crítico de cinema?

Mas afinal, qual é a função do crítico de cinema?

24/12/2023 Off Por Surya Bueno
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Posso dividir essa explicação em duas partes. O crítico de antes e depois da popularização das redes sociais e a explosão de vídeos na era do youtube e tiktok.

Mas antes, deixarei aqui a crítica do colega de profissão, José Haroldo Pereira, para a revista Manchete, em 1980, sobre o filme Império Contra-Ataca (um dos mais importantes da ficção no cinema),  e que poderia ser usada palavra por palavra nos dias de hoje para qualquer outro material. Deixo marcado pontos importantes dessa crítica, com comentários depois.

Ele começa com a típica frase “Antigamente”, que remete ao fatídico comparativo com outro trabalho, seja ele no cinema, escrita, ou composto. Depois segue para o argumento que o que sustenta a película é o som Dolby Stereo (hoje poderia ser o 3D?) e orçamento astronômico, além é claro deixando em pauta a temática da força como algo infantil e sem sustentação, além de um vilão “não carismático” (Vader foi considerado o maior vilão do cinema) e a reclamação de um final em aberto, sem a confirmação de uma sequência.

Ele estava errado na crítica? Eu afirmo que não… Na grande maioria das vezes, uma obra marcante, transformadora ou da “virada” causa estranheza e até indignação. Ele sustentou sua crítica ao comparar esse filme de Lucas com Flash Gordon e aos curtinhas pipocas seriado de cinema dos anos 50, pois era a bagagem que ele tinha como referência á época da estreia. Por essa ótica, todo o texto subsequente estava correto. Hoje, o que a ILM e Lucas fizeram no anos 80 foi inovador, nunca apreciado antes. E o público entendeu e é um sucesso replicado até hoje com a Marvel e tantos outros.

Um excelente crítico é um entusiasta da arte. É necessário estudar, entender as tendências do mercado, as mudanças, seja para algo novo ou no fim. Isso envolve entender como é escrito um bom roteiro, a montagem, direção e todas aquelas coisas de Oscar. Contudo há aquele fã que e curte uma trama divertida, por simples diversão, ou para ser popular nas redes sociais.

E aí que está o ponto de divergência. Nem sempre o profissional que destrincha um obra terá a mesma visão do público. Visto que não raras vezes as notas do Rotten Tomatoes são discrepantes entre os críticos e o voto popular.

 

Nesse caso o melhor dos dois públicos

Nem sempre uma continuação é garantia de sucesso

Produções fora do nicho estadunidense conquistam mercado internacional.

A repetição de uma fórmula com um diretor famoso pode dar discrepância

Sempre haverá aquele na lanterninha

 

Um bom crítico profissional “deveria” na maioria das vezes manter-se firme em uma análise mais técnica (roteiro, fotografia, argumentação, desenvolvimento, elenco, finalização e objetivo), do que sentimental.

Difícil, muito difícil. Pois afinal, não somos robôs e é custoso em certos momentos interpretar qual é a proposta do roteirista e do diretor em contrapartida ao que sentimos, afinal, é para isso que a terceira arte existe.

Vou exemplificar melhor.

No Oscar, por exemplo, você sabia que a única categoria em que todos os membros votam é de melhor filme? De resto, diretor só vota em diretor, roteirista em roteirista e assim por diante. O motivo é bem simples, somente um profissional da área sabe avaliar se a execução do coleguinha foi boa de fato. Acho engraçado quando uma pessoa nas redes sociais afirma “Não gostei, pois teve furo de roteiro”, sendo que nem é roteirista e confunde o tal “furo de roteiro” com o desejo que o mocinho X não morra.

Aí que entra a fase dois dos críticos. O popularzão, que deixa todo o argumento técnico de lado e parte para o lado sentimental. Gostam de finais felizes, roteiro clichê redondinho e previsível e obras no hype, cheio de teorias.

Estão errados? Também não! Pois estamos falando de emoção. E vou além. Particularmente não gosto de obras de terror ou com argumentos psicológicos (só tive gatilho uma vez na vida, mas isso é uma outra história).

Por mais que  sejam perfeitas, dentro da categoria que se encaixam, para mim, serão sempre ruins, duvidosas, pois na minha expectativa vou com os pés atrás. Pois os meus pretextos sempre serão evidentes e não do coleguinha da rede social.

Um bom exemplo, é Mad Max com Charlize Theron e Tom Hardy. Mad Max: Estrada da Fúria foi lançado em 2015. O longa arrecadou mais de US$ 375 milhões nas bilheterias mundiais, e venceu 6 Oscar, sendo indicado a outros quatro, incluindo melhor filme. Fiz uma crítica pesada sobre, pois em cima das minhas razões como do colega acima, foi péssimo, mas a maioria “venceu”.

E aí que vêm a cereja no bolo. Em teoria a missão do crítico é de fato apontar as nuances, camadas de uma criação. Sejam elas interessantes, perfeitas ou não. Argumentando, claro, os tais motivos para a conclusão, e isso é impedimento de você assistir? Claro que não! E o exemplo está bem no começo desse artigo. Se todos aceitassem a resenha do colega, o melhor filme da franquia de Guerra nas Estrelas seria um “fracasso de crítica” (a dele), e de público. Então como dizem hoje em dia, segue o barco.

Se um crítico tem um gosto como o seu e você curte ouvi-lo falar, argumentar, tudo bem! Caso contrário, tudo bem também. Só não vale assistir algo que de antemão sabe que não vai gostar e ir nas redes sociais jogar hate de graça. Aí não vale o jogo.