Akira em 4K é muito mais do que a famosa cena da moto de Kaneda
24/08/2026Akira é muito mais do que a famosa cena da moto de Kaneda derrapando — e isso não é um meme.
Quase quatro décadas depois de seu lançamento, falar de Akira é como falar de um clássico absoluto do cinema. Durante a sessão, percebi algo curioso: havia pessoas que nasceram muito depois da estreia e nunca tinham visto essa obra-prima da animação japonesa na telona. Agora, com a versão em 4K, a experiência ganha uma nova dimensão — em tamanho, qualidade de imagem e impacto sonoro.
Em 1988, quando o anime foi produzido, praticamente tudo foi feito à mão, quadro a quadro. A quantidade de tecnologia e recursos empregados — da estética à dublagem e trilha sonora — continua impressionante. Neo-Tóquio, reconstruída após a destruição de Tóquio, carrega uma clara alusão às explosões atômicas que marcaram a história do Japão. A cena inicial é arrebatadora: o clarão, a destruição e, em seguida, um silêncio quase mortal. No filme, porém, essa explosão está ligada a experimentos governamentais que despertam poderes psíquicos em crianças — e é aí que Akira revela uma de suas maiores forças.
Na época, personagens com poderes psíquicos ainda eram novidade fora do universo nerd. Mas Akira vai além: mostra a transformação de Tetsuo, um jovem marcado por frustrações e humilhações, diante de um poder que não consegue controlar. Ele não é apenas um vilão em formação, mas o retrato de alguém que deseja desesperadamente deixar de ser visto como fraco. Curiosamente, o personagem que dá nome ao filme quase não aparece. Akira funciona como um verdadeiro MacGuffin: um mistério que move toda a trama, mas permanece nos bastidores. Esse recurso narrativo, de colocar os holofotes sobre quem menos aparece, é fascinante.

Mesmo hoje, Akira continua atual. Katsuhiro Otomo nos faz refletir sobre política, moralidade, guerra, violência e desigualdade social. O famoso Akira Slide é só o exemplo mais conhecido da inventividade visual do longa. As perseguições de moto, os movimentos de câmera e os efeitos de luz ainda impressionam frente às animações digitais modernas. A produção inovou ao gravar as falas antes da animação, permitindo movimentos labiais mais naturais. Foram usados milhares de desenhos e uma paleta de cores criada especialmente para o projeto. A iluminação de Neo-Tóquio — reflexos, sombras, letreiros, transparências — estabeleceu uma linguagem que influenciaria gerações.


A trilha sonora, criada pelo coletivo Geinoh Yamashirogumi sob a liderança de Shoji Yamashiro, é a cereja do bolo. Mais do que acompanhar as imagens, a música constrói o universo de Akira, transmitindo caos, espiritualidade e grandiosidade. É uma experiência imersiva rara no cinema. O final enigmático coloca Akira ao lado de obras como 2001: Uma Odisseia no Espaço, Interestelar, A Origem e Blade Runner. Sua influência atravessou fronteiras: elementos visuais e narrativos podem ser vistos em Matrix, Looper, Stranger Things e muito mais.
No Brasil, seu lançamento em 1991 antecedeu a explosão de títulos como Cavaleiros do Zodíaco e Dragon Ball, graças à visão de Nelson Sato, que trouxe diversos clássicos ao país — legado hoje continuado por Victor.
Depois de 38 anos, Akira prova que alguns clássicos não envelhecem. Eles apenas aguardam que novas gerações estejam prontas para descobri-los.

