Hayao Miyazaki é o grande fundador do Studio Ghibli e um dos nomes que mais ajudaram a elevar a animação ao patamar de arte. Suas obras, premiadas com Oscars, exploram com profundidade temas como ecologia, infância e imaginação poética, consolidando-o como um dos autores mais influentes do cinema contemporâneo. Miyazaki domina com maestria o conceito japonês de Ma (間) — que significa literalmente “espaço” ou “intervalo”. Mais do que um simples vazio, o ma é o silêncio ou a pausa carregada de significado: o momento entre ações que confere ritmo, respiro e profundidade à experiência.
Nos filmes de Miyazaki e do Studio Ghibli, o ma se manifesta em cenas contemplativas, em que o tempo desacelera e o espectador é convidado a absorver o ambiente, a atmosfera e a emoção, sem a pressa de avançar a narrativa.
É a partir dessa referência que faço a resenha a seguir.
Eduardo Nunes demonstra grande sensibilidade artística em Cinco da Tarde, mas o filme acaba dividido entre dois universos que nem sempre se conciliam: o cinema de autor e o filme comercial.
Como obra de arte, o longa acerta em cheio. Filmado (ou finalizado) em preto e branco, com raras explosões de cor que pontuam a rotina das protagonistas, o filme adota um ritmo extremamente lento e introspectivo. Com um elenco enxuto, a câmera abusa dos planos fechados em foco, privilegiando rostos e expressões, o que potencializa as atuações das três protagonistas. Sharon Cho entrega uma interpretação sutil e profundamente tocante, ao lado de Analu Prestes e Miwa Yanaguizawa. O roteiro, propositalmente próximo da realidade, é lento, pensativo e, por vezes, excessivamente pausado. Os diálogos beiram a simplicidade extrema, quase minimalistas, refletindo com precisão o quadro de depressão e luto que marca especialmente Anabel (Bárbara Luz), que carrega uma interpretação brilhante e intensa.
A direção de Eduardo Nunes privilegia planos fixos longos, contemplativos, um desenho de som imersivo e transições fluidas entre realidade, memória e fantasia. A intenção de transmitir o peso do luto e do amadurecimento de duas pessoas quebradas é clara. No entanto, esse mesmo recurso é o que distancia o filme do circuito comercial. Não há um conflito claro a ser explorado, tampouco um fio narrativo forte o suficiente para sustentar duas horas de projeção. Acabamos nos tornando meros observadores da rotina muitas vezes enfadonha de Anabel.
O filme ainda reserva um final que transmite uma sutil mensagem queer, quase sussurrada, sem didatismo, o que reforça sua proposta autoral.
Resumo: se você aprecia cinema de autor, com ritmo próprio, forte apelo sensorial e interpretações delicadas, Cinco da Tarde é uma excelente oportunidade. Caso prefira narrativas mais ágeis e tradicionais, o filme pode testar sua paciência.
Filmado em agosto de 2022 em locações de Niterói, o longa reflete a cidade natal do diretor e roteirista. Lugares como o Campo de São Bento, a Igreja Porciúncula de Sant’Ana e o Edifício Cézanne, erguido onde já foi o antigo Cine São Bento, aparecem como cenários marcantes no filme.
As filmagens reuniram a mesma equipe que trabalhou nos outros projetos de Nunes, consolidando uma parceria de mais de 30 anos iniciada no encontro da maior parte da equipe no Curso de Cinema da UFF. A finalização do filme ocorreu em coprodução com Portugal, através da Bando à Parte, onde foram realizados a edição de som, efeitos digitais, mixagem de som e música.
“O filme foi realizado através do Primeiro Edital de Fomento do Audiovisual da Prefeitura de Niterói, e tenho muito orgulho disso, pois acredito que a cidade tem um potencial enorme para o cinema. Não à toa uma das mais importantes Escolas de Cinema do Brasil reside aqui em Niterói. Este edital permitiu que eu, depois de mais de 30 anos de carreira, filmasse pela primeira vez em minha cidade. E foi muito especial voltar a lugares onde passei a infância, como o Campo de São Bento e os arredores da Igreja Porciúncula de Sant’Ana. Além de fazer uma homenagem ao Cine São Bento, que meus pais frequentavam”, comenta o diretor.
As produtoras executivas Fernanda Reznik e Izabella Faya são sócias da produtora 3 Tabela Filmes, e realizaram filmes como “Derrapada” (2022) de Pedro Amorim, “Unicórnio” (2018) de Eduardo Nunes e “5 Vezes Chico – O Velho e Sua Gente” (2015), documentário que conduz uma viagem poética através do rio São Francisco. Já o coprodutor português Rodrigo Areias acumula uma extensa trajetória no cinema europeu, com produções de cineastas como Manoel de Oliveira, Edgar Pêra, Peter Greenaway e Ana Rocha.
FICHA TÉCNICA
Direção: Eduardo Nunes
Roteiro: Eduardo Nunes
Produção Executiva: Izabella Faya, Fernanda Reznik & Rodrigo Areias
Direção de Fotografia: Mauro Pinheiro Jr, ABC
Figurino: Luciana Buarque
Montagem: Flávio Zettel, EDT
Assistente de Direção: Ana Izabel Aguiar
Música: Paulo Furtado
Desenho de Som: Pedro Marinho
Mixagem: Maurício D’Orey
Produção: 3 Tabela Filmes
Coprodução: Bando à Parte
Distribuição: 3 Tabela Filmes
SINOPSE
Com a morte da avó, Anabel, uma jovem de 17 anos, aproxima-se de Meiko, uma tímida vizinha. Aos poucos, esta singela aproximação mostra-se reveladora de sentimentos escondidos e semelhanças improváveis. Voltando ao apartamento da avó, Anabel encontra uma estranha presença, que a faz compreender melhor o momento em que está vivendo.
EDUARDO NUNES | Diretor
Eduardo Nunes nasceu em 1969 na cidade de Niterói. Estudou na Escola de Cinema da UFF. Em 1994 dirigiu seu primeiro curta: “Sopro”. A partir daí, seguiram-se outros quatro curtas, que, juntos, ganharam mais de 50 prêmios internacionais. Em 2012, realizou “Sudoeste”, seu primeiro longa-metragem, que estreou na competição do Festival de Rotterdam, e foi exibido em 27 países, ganhando 23 prêmios (incluindo dois Fipresci e o prêmio Andrei Tarkovski). “Unicórnio”, seu segundo longa-metragem, estreou em 2018 no prestigiado Festival de Berlim (Berlinale), e conta com Patrícia Pillar e Zécarlos Machado no elenco. O filme foi exibido e premiado em diversos festivais internacionais. “Cinco da Tarde” é o seu terceiro longa de ficção.
3 TABELA FILMES | Produtora e Distribuidora
A 3 Tabela Filmes é uma produtora independente de cinema e TV, estruturada para atuar nos mais diversos segmentos audiovisuais. Idealizada no curso de cinema da Universidade Federal Fluminense (UFF), a partir da história de um grupo de amigos, unidos por sua paixão pelos filmes. Hoje, conta com um grupo de experientes cineastas, técnicos e produtores, cujo currículo inclui o trabalho em algumas das mais importantes redes de TV e instituições culturais brasileiras, além de obras exibidas nos principais eventos cinematográficos do país e do mundo.
Nos últimos anos, a produtora tem se especializado na criação e realização de conteúdo de qualidade. Com flexibilidade e criatividade, nossa equipe atualmente desenvolve conteúdo próprio para séries de TV, cinema e Mídias Móveis e também trabalha no desenvolvimento de projetos e escrita de roteiros em parceria com outras produtoras.
BANDO À PARTE | Coprodução
A Bando à Parte é uma empresa portuguesa de produção cinematográfica que produz longas e curtas metragens de ficção, animação e documentários cinematográficos. A produtora tem como principal objetivo funcionar como um coletivo de profissionais que se dividem entre a imagem real e o estúdio de animação. Além disso, tem tido os seus filmes lançados e premiados nos principais festivais de cinema do mundo, como Cannes, Veneza, Berlim, Locarno, Roterdão, Karlovy Vary, Clermont Ferrand e Annecy. Voltada para co-produções internacionais, tem produzido filmes com países como Brasil, Alemanha, França, Inglaterra, Finlândia, Argentina, Estados Unidos e Japão.